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Beber água realmente previne cálculo renal?

A orientação “beba bastante água para evitar pedra nos rins” é conhecida por quase todo mundo. E, de fato, a hidratação adequada é uma das medidas mais importantes na prevenção da litíase urinária. Mas, como mostram diversos estudos, a água sozinha não resolve todos os casos, principalmente quando há fatores metabólicos ou comportamentais envolvidos.

Neste texto, vamos esclarecer por que a hidratação ajuda, quais são as suas limitações e o que mais precisa ser investigado em pacientes com cálculo renal recorrente.

Por que a água ajuda a prevenir cálculos renais?

Os cálculos se formam quando a urina fica muito concentrada, favorecendo o acúmulo de sais de cálcio, oxalato, fosfato e ácido úrico. Quanto mais concentrada a urina, maior o risco de destes sais se agregarem e crescerem, formando pedras.

Estudos mostram que manter alto volume urinário (idealmente acima de 2–2,5 litros por dia) reduz o risco de formação de cálculos entre 40% e 60%.

Isso acontece porque o maior fluxo urinário:

  • dilui os sais presentes na urina, reduzindo a supersaturação; 
  • melhora a “lavagem” das vias urinárias; 
  • dificulta a agregação de cristais. 

Uma urina clara, quase transparente, costuma ser o melhor indicativo de hidratação adequada.

Mas beber água não resolve tudo — e essa parte quase ninguém fala

A hidratação é essencial, mas não é suficiente quando existe alguma alteração metabólica que favorece a formação de cálculos, como:

  • hipercalciúria (excesso de cálcio na urina) 
  • hiperoxalúria (oxalato elevado) 
  • hipocitratúria (falta de citrato, substância que protege contra cálculos) 
  • hiperuricosúria (excesso de ácido úrico) 

Além disso, hábitos alimentares inadequados têm forte impacto, como:

  • uso excessivo de sal 
  • dieta rica em proteínas animais 
  • consumo elevado de alimentos ricos em oxalato 

Ou seja: a formação de cálculos renais geralmente não é culpa apenas da água — é uma combinação de fatores.

O que o paciente deve fazer, então?

A recomendação geral é manter alto volume urinário diário, mas quem já teve pedra precisa fazer mais do que isso.

A avaliação metabólica completa pode incluir:

  • Exames de sangue (cálcio, ácido úrico, eletrólitos, função renal) 
  • Exames de urina de 24 horas, para avaliar cálcio, oxalato, citrato, etc. 
  • Análise do cálculo, quando possível, para identificar sua composição 

Esses dados ajudam a definir o tipo de cálculo e orientar a prevenção personalizada — que pode incluir ajustes na dieta ou, em alguns casos, medicamentos específicos.

O que dizem as diretrizes?

As principais sociedades de urologia reforçam que aumentar a ingestão de líquidos é a recomendação universal, mas não suficiente em casos de recorrência:

  • A European Association of Urology (EAU) recomenda um volume urinário diário acima de 2–2,5 L como primeira estratégia preventiva. 
  • A American Urological Association (AUA) orienta avaliação metabólica completa em pacientes com cálculos recorrentes ou de alto risco. 
  • Estudos clássicos como o de Borghi et al. (NEJM) confirmam redução significativa de recorrência com aumento da ingestão hídrica, mas mostram que pacientes com alterações metabólicas precisam de tratamento direcionado. 

Resumo

A água é uma aliada essencial para prevenir cálculos renais, mas não é a solução isolada.

Cada paciente tem um mecanismo diferente de formação de pedras, e a prevenção eficaz depende da identificação dessas causas — especialmente em quem já teve recorrência.

Se você já apresentou cálculo renal, o ideal é conversar com seu urologista e avaliar a necessidade de exames metabólicos. Assim, não tratamos apenas a crise, mas evitamos que o problema se repita.

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